(página em actualização)


Bem-vindo(a) ao meu blogue!
Aqui vais ter a oportunidade de ler todos
os meus projectos escritos.
Boa Leitura!


Nome: éme ~ The other Side
URL: http://theothersiide.blogspot.com
Online desde: 8.12.2009
Visitas: online


Importante

Não tenho a noção de quantos leitores tenho neste blog, mas penso que são realmente muito poucos. Ainda assim, tenho respeito pelos pouco que tenho e adoro tê-los, mas a preguiça é maior do que isto tudo. Posto isto, devia avisar-vos que me ando a desleixar com as actualizações da Uprising por aqui. Eu posto a fic em três sítios e este é sempre o mais ignorado por mim e onde a fic tem menos leitores.

Como demoro séculos a actualizar aqui seja o que for, sugiro aos leitores que sigam a fic num dos seguintes sites:


Ambos são fóruns dos Tokio Hotel e precisam de registo para aceder às Fanfics. Aconselho vivamente o primeiro porque posto muitas informações sobre a fic que não faço em mais lado nenhum. Desculpem o incómodo, mas postar no blogger dá-me dores de cabeça. 

Capítulo 39


Tom expirou fundo assim que fechou a porta do quarto de Kim. O que quer que fosse que acabara de acontecer entre eles, ele não queria pensar muito nisso. Não chegaria a conclusão viável alguma, não chegaria a saber se devia seguir por aquele caminho na relação de ambos, sendo ela quem era, se devia parar, precisamente por ela ser quem era. Por tudo isto e por voltar a sentir-se um adolescente hormona e mentalmente descontrolado, ainda que com mais responsabilidades do que o Obama, decidiu não pensar em Kim nem no significado de todas aquelas carícias bem mais íntimas que poderiam mudar a visão que ela tinha dele.
Decidiu sair do hotel, na esperança de ainda encontrar Bill. Apesar da discussão infantil, não podia deixá-lo sair para uma cidade desconhecida, sabendo o que lhe poderia acontecer. Para seu alívio, Bill entrava no carro no preciso momento em que saíra. Rachel subia as escadas do alpendre com o sorriso que ele tão bem conhecia e que tentava evitar.
- Estava a ver que não – comentou a loira, piscando-lhe o olho e socando-lhe o ombro de forma amigável. Ele sorriu e apertou-lhe o nariz, despedindo-se dela. Antes que o irmão saísse, apressou-se a entrar no carro. Bill olhou para ele, em desafio, e ergueu um sobrolho, um gesto que Tom desprezou mais do que tudo. O ambiente dentro do carro era tenso, mas iriam juntos à cidade, a bem ou a mal. Teriam de estar juntos naquilo, ignorando quaisquer birras ou amuos.
- Dás à chave ou estás à espera que isto ande sozinho? – lembrou Tom, valendo-se do seu sarcasmo natural para que o irmão achasse ter chegado ao seu limite da paciência. Não perguntou porque o das tranças o acompanhava, não o mandou embora, não lhe dirigiu uma única palavra. Ligou a ignição e fez marcha atrás no carro alugado em LA. O único que restava.


Tom mantinha o porta-luvas há algum tempo aberto e fazia questão de revirar todo o seu conteúdo da forma mais irritante que conseguira arranjar. Na verdade, fazia-o porque se sentia entediado e porque não queria falar com o irmão. Não queria ter que ser ele a engolir o orgulho e a pedir-lhe desculpa pelo que dissera quando não se mostrava arrependido e voltaria a dizê-lo. Não queria que Bill o desprezasse e queria muito falar com ele, no entanto recusava-se a ser o primeiro a ceder. Entretanto esticaria a corda um pouco mais; ele saberia quando partisse.
Com um sorriso dissimulado, destapou uma das canetas que tirara no pequeno compartimento e tirou uma das inúmeras máscaras que lá havia. Colocou-a no rosto e, valendo-se do espelho das palas pára-sol, desenhou um smile sobre o tecido branco. Esmerou-se nos detalhes e ficou contente com o resultado final. Depois do momento infantil, ligou o rádio e a música country tirou lugar ao silêncio pesado.

Uns grandes olhos, raiados de sangue, baços e sem vida pareciam fitá-lo com intensidade. A boca entreaberta e coberta de sangue, as enormes bolhas, os hematomas na pele e o grande inchaço nos membros despidos confirmaram o que ele se recusava a pensar. Tropeçara num corpo.

Bill rodou o pescoço para aliviar a tensão muscular e para abstrair-se do tipo de música que lhe trazia memórias pouco sedutoras.

A fraca luz incidia sobre ele, intensificando o olhar do homem, dando-lhe uma tonalidade quase psicadélica; a melodia melancólica country adensava o ambiente e o cheiro, felizmente, já não se fazia sentir. Bill sentira-se invadido pelo pânico que todos os seus sentidos, excepto a visão, pareciam não existir.

Piscou os olhos diversas vezes, reduziu a velocidade do veículo e acabou com o suplício.
- Ok, já chega – desligou o rádio abruptamente, declarando guerra. – Isso está a irritar-me.
- Temos pena. – Com um sorriso provocatório, o mais velho tornou a ligar o aparelho e então soube: a corda partira. A paciência de Bill acabara e ainda não tinham encontrado vivalma nas ruas.
- Então é isto? Resolveste amuar como um puto mimado de cinco anos? Lamento informar-te de que não temos tempo para mariquices dessas – explodiu Bill, como Tom já esperava há algum tempo. Tom podia continuar a discussão iniciada no quarto, mas sentia-se cansado de infantilidades e rivalidades.
- Vira à esquerda – disse apenas, num tom tão calmo que quase fez o mais novo saltar do banco para que lhe pudesse bater com a cabeça no vidro várias vezes até que reagisse como um Kaulitz!
Bill leu a indicação da tabuleta e resolveu ignorar a sugestão.
- Quem é que está de birra, afinal? – contrapôs Tom, ao ver que o irmão seguira em frente só para o contrariar. Era tão anormal, por vezes, que se não fossem tão iguais, até a discutir, ele teria dúvidas quanto à sua relação de parentesco. – Estás parvo? Eu disse para…
- Virar à esquerda. – Bill adquirira um moderado de voz, como o irmão fizera. - Eu conduzo. Eu digo que é em frente.
Tom tirou a máscara com alguma brusquidão e lançou-a para o tablier.
- Ouve puto, estou contigo por aqui! – Puxou uma das tranças negras. - Fartinho das tuas merdas, por isso vê se atinas!
Bill disfarçou um sorriso presunçoso por ver que o gémeo finalmente reagia. Então, sem tirar os olhos da estrada, continuou em tom calmo:
- Eu não te pedi para vires.
Sim, pedira, mas Tom não iria relembrá-lo do facto quando ambos ainda tinham o pedido bem fresco na cabeça.
- Eu também não! – ripostou o das tranças, referindo-se àquela viagem. Ao facto de terem saído da Califórnia em direcção ao Canadá, sem certezas de nada.
- O problema é que eu não penso só em mim, idiota! – Tom queria ter rido, mas a situação era demasiado ridícula para sequer rir. Viera com Bill para o proteger e sabia que se lho dissesse, ele nunca lhe agradeceria. Se havia coisa que Bill nunca conheceria da sua parte era o egoísmo. Faria tudo por ele e só um demente não teria percebido ainda.
- Eu sou egoísta, não é? – continuou Bill, como se conseguisse ler a mente do irmão. - Idiota, infantil, imponderado, maluco e doente. Sou isso tudo, mas o que é bom é que quando nos lixamos, o Bill é que arca com as culpas. O Bill é que tem culpa de não conseguirmos sair daqui. O Bill é que tem culpa da namorada quase ter morrido por uma doença estúpida vinda de sei lá onde! De ter sido o único a tomar uma decisão, decente ou não, mas a única, para sairmos daquele beco sem saída. O Bill é que tem a culpa de termos sido assaltados. O Bill é que tem sempre culpa desse teu feitiozinho de merda e o Bill…
- TRAVA!
Bill obedeceu prontamente, num gesto automático, sem saber a razão para o berro repentino de Tom. Depois de travar a fundo, percebeu a razão do alarme. Antes que pudesse dizer alguma coisa, o gémeo já saíra do carro, levando a máscara pintada e umas luvas descartáveis. Percebeu o que ele ia fazer e seguiu-o, embora contrariado. As pernas tremiam ao andar, a respiração tornara-se irregular. Tê-lo-ia atropelado, pensou ao aproximar-se do menino caído no alcatrão. Tê-lo-ia feito se os reflexos de Tom não o tivessem impedido.
A criança não se movia, olhava fixamente para um grande portão branco, do outro lado da estrada, para uma modesta casa cujo cão de guarda latia incessantemente, como se comunicasse com ele. Bill apressou o passo e chamou Tom, que não lhe respondeu.
- Olá - cumprimentou Tom, agachando-se perto do rapaz. Apesar do sorriso trémulo, ele não sabia o que fazer. Há semanas encontrara uma rapariga caída no chão e levara-a para casa porque não conseguira ignorar a sua debilidade. Desta vez, porém, a situação era mais grave. Salvara Kim, mas aquela criança não teria salvação. As manchas no corpo franzino, a respiração acelerada e os olhos baços e raiados de sangue, que agora se dirigiam a si, curiosos, não eram indicadores de saúde. 
- Dói – queixou-se, fazendo uma careta aflita. Sem se conseguir conter, soluçou assustado, sem que qualquer lágrima saísse dos seus olhos.
- Tom… - chamou Bill novamente, sentindo o coração mirrar face a impotência que ambos tinham perante o sofrimento do pequeno.  
- Os teus pais? – insistiu Tom.
- Papá.
- Tom. – repetiu Bill, acabando por ser ignorado.
- Sim, onde está o teu papá?
- Mamã. – O menino tornou a soluçar e a olhar para o cão barulhento e agitado.
- Ele está doente, Tom… - balbuciou Bill, ajeitando a máscara sobre o rosto e agachando-se ao lado do seu semelhante. A criança fitou-o com os seus olhos grandes, suplicantes, e foi impossível resistir. – Gott, ele está doente. – Tocou-lhe na mãozinha e sentiu-a fria contra a sua, através do fino látex. Em resposta, o rapazinho apertou a mão grande, com uma força débil que terminou com uma tosse repentina. Bill estremeceu e preparava-se para tomar uma decisão de que se arrependeria no instante seguinte quando algo frio pressionou a sua nuca descoberta.
- Larga-o já!
Ambos olharam para o dono da voz, um homem aparentemente civilizado, vestido de forma elegante e cuidada que não escondia as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto, misturando-se com o suor intenso. Atrás dele, viera o cão que correra para perto da criança e o cheirara, até lhe lamber o rosto.
Bill poderia ter-se emocionado com a cena, tal como Tom, se não tivesse uma arma apontada à cabeça, se não sentisse o pânico invadi-lo. Tom tentou manter a calma pelos dois e levantou-se devagar, sem deixar de fitar o homem irado.
- Nós podemos ajudar – disse, erguendo as mãos para que ele percebesse que não iriam magoar ninguém.
- Sai daqui imediatamente! – gritou, apontando a arma a Tom e limpando o rosto com o braço. O calor abrasador não ajudava ninguém a pensar com clareza e a confusão, medo e raiva tomavam conta da expressão do homem. – Não! Tu… - Puxou Bill, que aproveitara para fugir do seu alcance e engoliu em seco. Estava derrotado e isso tornara-se evidente. – Ajuda-me – suplicou puxando-o violentamente para si. – Ajuda-me.
Bill não ousou sequer piscar os olhos. Sentiu o estômago revolver-se com o toque molhado do homem, com a expressão dele. Algo que ele já vira antes.

– Estás com febre, Rachel. – afirmou ao tocar a sua pele escaldante.
- Não há médicos e não tenho febre nenhuma. Só calor.
- Mas posso…
- NÃO! – berrou a rapariga, empurrando-o para longe de si com a força que o seu corpo debilitado concedia.  – Não podes e pára de me chatear a cabeça que já me dói o suficiente. – tornou a gritar, agarrando-se à cabeça e fechando os olhos com força, num esgar de dor, e deixou-se escorregar até ao chão.
- Rach… - Ela nunca o tratara daquela forma. Nem mesmo quando tinha razões para o fazer. Nunca. Sempre fora carinhosa, apaixonada e nunca o afastara assim. Bill não queria pensar naquilo como um ataque pessoal e ignorando a afronta, ajudou-a a erguer-se.
- Vem…
- Eu disse que não. – esperneou e tornou a empurrá-lo, a esmurrá-lo cegamente para que se afastasse. – Deixa-me em paz. Pára de andar feito carraça atrás de mim como se eu fosse de porcelana. – gemeu, puxando os cabelos, como se estivesse a lutar contra algo que não ele. O alvo não podia ser ele. Não havia razões. Não obstante, Bill sentiu-se atingido.
- O quê?
- Deixa-me. – choramingou, apesar da súbita irritação.

Ele também estava doente. E tocava-lhe. Agarrava-o como se a sua vida dependesse disso.
- É o pai dele? – Tom forçou um diálogo cordial uma vez mais, mais para distraí-lo de Bill.
- Diz-lhe para se calar – berrou o desconhecido, uma vez mais, em lágrimas, para Bill. – Fá-lo calar, por favor. – Levou as mãos à cabeça e parecia ceder, finalmente. Rachel pedira o mesmo, mostrara a mesma violência, a mesma bipolaridade.
- Nós podemos ajudar – repetiu Tom, sentindo o nervosismo tomar conta de si.
- Não, não podem – murmurou, resignado. – O meu filho vai morrer…
- Eu… - engoliu em seco, antes de mentir. – Nós temos a cura. E pudemos ajudá-lo sem que haja…
- NÃO! – irado, disparou a arma cegamente. Só queria que ele se calasse, que não lhe desse falsas esperanças, que não lhe confundisse a cabeça. – Ninguém ajudou até agora! Eu preciso… preciso…
Bill sentiu-se tonto ao perceber o que realmente tinha acontecido. Olhou para o homem em confronto consigo mesmo e para o irmão agora caído no chão. Inconsciente. Ferido. Sentiu as lágrimas aglutinarem-se rapidamente e os olhos arderem. Não conseguia deixar de olhar para Tom, simplesmente olhar, sem conseguir reagir, até ver sangue na sua t-shirt.
Deu por si a pensar que o homem não fizera de propósito, que não tivera culpa por ter agido daquela forma. Que iria perder um filho em breve, tal como Natalie. Que tinha a doença a consumi-lo. E então pensou que ele também não tinha culpa, que Tom não era o culpado. Que tinham direito de viver tanto quanto eles.
Num acto irreflexo, atirou-se ao homem com uma fúria descontrolada que não se lembrava de ter sentido antes. A sua força e estrutura física era ridicularizada só pela presença do outro, mesmo que débil. Ainda assim, Bill movia-se cegamente, enfurecido, e por mais magoado que saísse daquela disputa, retribuiria conforme pudesse.
Os dedos dirigiram-se aos olhos, ao cabelo, onde conseguisse. O joelho subiu directamente à sua pélvis, sabendo que o iria arrasar totalmente, sem qualquer tipo de solidariedade masculina. Ao ver o homem caído no chão, as lágrimas fluíram livremente e com um guincho agastado caiu juntamente com ele.
- Tu mataste o meu irmão, cabrão!
O homem já tinha cedido há muito, no entanto Bill esmurrara-o sem piedade até que se sentisse mais leve. Até que os nós dos dedos ficassem em ferida. Até que o outro deixasse de respirar.
Ao cair em si, percebeu que mais importante que fazer aquele homem sofrer pelo que fizera irreflectidamente, era certificar-se de que o seu irmão continuava consigo. Que aquela viagem não ia ter o desfecho que começava a ganhar contornos na sua cabeça.
- O que é que eu fui fazer? – Levou as mãos à cabeça, arrasado, e arrastou-se para perto do gémeo.
O que fizera afinal?

Capítulo 38


Assim que entrou no quarto dela, percebeu-a cabisbaixa, trémula e verdadeiramente assustada. Mais do que na noite anterior.
- Kim – chamou, para captar a atenção da rapariga apática.
Ela ergueu o olhar passado algum tempo e o que Tom viu nele petrificou-o.
- Eu vou morrer, Tom. Agora tu não me podes salvar.
Ele franziu os sobrolhos e fechou a porta atrás de si com uma lentidão interminável. Esperou que ela continuasse, que terminasse o que lhe dissera sem rodeios. Ele acordara a saber que fora assaltado, traído por pessoas que se disseram honestas e lhes levaram dinheiro por aquela estadia, percebera-se perdido naquele país enorme e, agora, Kim insistia numa ideia tresloucada. De que é que ela estava a falar?
- O que é que estás para aí a dizer? – ele riu para afastar a hipótese de qualquer seriedade no que ela dissera. Não era a primeira vez que ouvia aquelas palavras. Ela dizia-o sempre que uma realidade nova lhe ela mostrada e que passava a temer. Disse-o naquele dia em que tudo mudara entre eles, em que ela se tinha aberto para ele e pudera confiar finalmente nela; quando ambos perceberam que ela não poderia comer nada sem que vomitasse, quando ele finalmente percebeu que Kim era muito mais do que a rapariguinha frágil e amnésica que precisava de ajuda.
- Eu não quero morrer. – No entanto, daquela vez havia uma súplica no olhar que ele não conseguia nem queria perceber.
O sorriso desfez-se com a expressão dela. Preocupado, rodou o piercing labial com a língua diversas vezes, pensando numa forma de a abordar sem ofendê-la. Tinha acabado de discutir com Bill e a sua paciência era nula para conseguir suportar uma crise infantil e típica da rapariga. Não obstante, agachou-se perto dela e afastou-lhe as mãos da face assustada, certificando-se de que os olhos continuavam vítreos, mas sem lágrimas, os lábios contraídos, numa linha dura e impenetrável.
- Hey… e não vais morrer. – sussurrou, procurando o olhar dela. - Que história é essa?
- Desapareceram – murmurou ela, num fio de voz que ele não conseguiria ouvir, se não estivesse tão perto. – Desapareceu tudo. A Natalie estava tão… - ela gesticulou, sem terminar. - Oh espera, tu estás bem?!
- Estou. O que é que te roubaram?
- A minha mochila. – Ela engoliu em seco e olhou para o local onde tinha colocado a sua mala, na noite anterior. - Eu tinha lá tudo, Tom. Dinheiro e… e os frascos. – Foi forçada a diminuir o tom de voz quando a sentiu falhar, quando se sentiu estremecer. Ou seria ele que estremecia perto dela? - Levaram-nos e eu não sei…
- Tem calma.
- Não me toques agora – pediu a morena, afastando-se da mão que lhe iria afagar a face e deixar que os seus pensamentos parassem de fluir com coerência. - Eu preciso de pensar.
E ele também precisava. Precisava pensar no motivo que levara alguém que vivia de um negócio hoteleiro a assaltar os seus hóspedes de maneira tão untuosa; no motivo que os levara a roubar aquela mochila velha e suja; em como ser racional o suficiente para poder ajudar Kim e ajudar-se a si mesmo, a conseguir superar tudo aquilo. Também podia pensar porque não considerara antes a hipótese de assalto e porque não a aconselhara a colocar os frascos num local mais seguro. Poderia pensar em mil e uma coisas mas nenhuma conseguiria fazê-lo sentir-se melhor.
- Eu tinha lá dinheiro. E agora?
Ela fitou-o com desespero, como sempre fazia quando queria uma resposta que só ele podia dar. Desta vez ele não sabia que resposta dar.
- É só dinheiro, Kim. Não é importante. – O dinheiro deixara de ser importante face a prioridade da vida dela. Ambos sabiam o que acontecia quando ela se privava daquelas injecções que ele não compreendia. - Quando te injectaste pela última vez?
- Quando chegámos. Doía-me tanto a cabeça. Se eu soubesse…
- Tudo bem. Não guardaste nenhum frasco? Em lado nenhum?
- Não, eu… - Ela parou para pensar e lembrou-se da última vez que se injectara. Vira sangue nas suas cuecas, pedira ajuda e Natalie prontificara-se a ajudar imediatamente. Oferecera-lhe um pequeno objecto de algodão com um cordel que, quando a loira especificara o que teria de fazer com ele, esbugalhara os olhos e fizera a careta mais enojada de que se lembrava. Não se injectara, porém não conseguia recordar-se de onde tinha colocado o frasco. – Oh, talvez reste apenas um. Mas eu não sei… A Natalie pode tê-lo guardado, mas se não guardou? Ou se eu não tirei nenhum e estou a fazer confusão? Oh Tom, tenho uma semana de vida! Uma semana!
- Primeiro que tudo: não te quero a pensar assim, ouviste? – Ele recusava-se a perdê-la em poucos dias. Recusava-se a vê-la perder a sua vivacidade e ceder àquele torpor doentio, por isso agarrou-a pelos ombros e forçou-a a voltar à realidade. – Olha para mim, Kim. – Desta vez, teria que lidar com ela com firmeza. Não podia ir abaixo com o que estava a acontecer e sabia que aquele pensamento era dirigido a si mesmo e não a ela. Apesar de ter a sua própria vida em risco, a de Kim estava por um fio e isso, de certa forma, conseguia fazê-lo esquecer-se por momentos da situação caricata em que estavam. – Olha para mim. – repetiu sério e assim se manteve até ela o olhar. – Tu não vais morrer. Eu prometi, lembras-te? – Sim, ela lembrava-se, mas por mais confiança que tivesse nele, apesar de ele ser a melhor pessoa que ela jamais conhecera e a mais importante da sua vida, sabia que era humano. Tão humano quanto ela, com falhas, fragilidades, sem quaisquer poderes que a salvassem ou o salvassem. Também ele precisava ser protegido, concluía. E ela morreria. - Vais provar que consegues sobreviver sem aquilo.
- Eu não consigo.
E se não conseguisse? Então e se conseguisse? Tom podia não perceber os compostos químicos daquilo que ela injectava para sobreviver, mas percebia que Kim era tão ou mais saudável do que ele. Provavelmente não precisaria mais de suplementos. Talvez conseguisse viver normalmente. Não a deixaria morrer sem tentar.
- Vamos tentar. E tu vais conseguir. – tocou-lhe no queixo e ela não o afastou. – Em breve estaremos no teu país e eu prometo ajudar-te a encontrar a tua família. Terás as pessoas que gostam de ti do teu lado e vão poder ajudar-te… porque te conhecem. – Ele não acreditava no que dizia, mas teria de fazer tudo aquilo que prometia resultar. Já não havia nada a perder quando perdera tudo.
- Também vais estar do meu lado? – Kim tornou a olhá-lo daquele modo que o deixava desconfortável, e pousou a mão sobre a sua, que afagava o seu queixo, para o forçar a encará-la e responder-lhe com sinceridade.
Ele soltou-a com desapego e sentou-se ao lado dela. Não lhe podia responder com sinceridade e odiava não poder fazê-lo. As regras do jogo jogado com Kim eram totalmente diferentes de qualquer outro jogo que já tivesse jogado antes.
- Tu vais ficar bem. – acabou por dizer, sabendo ser a única resposta possível. Ambos deviam saber qual o final daquela aventura quando encontrasse os responsáveis por ela. Ele iria para a Alemanha e ela ficaria. Era claro como a água embora ele não pudesse torná-lo claro para ela também. Ela não perceberia.
- E tu? Tu vais ficar bem?
Tom não respondeu e o silêncio prolongou-se durante demasiado tempo. - Eu pensei… que vos podia salvar a todos. – continuou a rapariga. - Eu realmente podia, Tom. E se tu ficares doente? Se tu ficas como a Rachel?! Ou se ela volta a ficar assim? Eu quero ajudar e assim não sei como fazê-lo.  
Então ele soube. Soube que por mais que quisesse tornar tudo claro na sua cabeça, continuar a ignorar aquilo que sentia perto dela era impossível. Ninguém ficaria indiferente a alguém que coloca a sua frágil vida em segundo plano para a segurança de outros. Era a segunda vez que Kim o fazia e algo se remexia dentro dele por isso. Outra vez. E por outras coisas que não se atreveria a pensar naquele momento.
Todavia, se queria dar vazão ao que sentia, deveria começar por ajudá-la no que realmente interessava e não preocupar-se com sentimentos que não trariam felicidade a nenhum dos dois num futuro próximo. A prioridade era outra, por isso, passou das palavras aos actos.
- Eu não te quero a pensar em nós. – afirmou, resoluto. - Tens de começar a pensar em ti e haja alguém que se encarregue de te dar um empurrão nisso. – levantou-se da cama e fez a primeira coisa que se lembrou. - Vais ter de comer. – avisou, captando-lhe a atenção.
- Eu não consigo.
- Consegues sim, Kim. Tudo o que vamos fazer é um teste. – Abriu o modesto mini bar que a suite dispunha e, de entre todas as bebidas alcoólicas, água mineral e sumos gaseificados, optou por um solitário pacote de leite achocolatado. – Bebe – ordenou, chocando-a. - Há um mês que não comes e está na altura de voltares a tentar.
- Eu não…
- Consegues sim – interrompeu-a, acabando com a sua atitude derrotista e insistiu novamente. Estendeu-lhe o pacote e manteve o tom sério. – Falava muito a sério quando disse que não vais morrer.
Ela assentiu, surpresa com a mudança de humor dele. Ele não reagia assim com ela há tanto tempo que ela esquecera que Tom tinha um lado sério e menos atraente. Não a atemorizara, no entanto optou por beber o leite em silêncio, acatando as suas ordens quase parentais. Ela não precisava de um pai naquele momento, mas dele.
- Alguma diferença? – perguntou o rapaz agachando-se novamente perto dela, quando ela terminou.
- Boca doce. Isto é delicioso. – Tom esboçou um leve sorriso contrariado. - Poderia passar toda a vida a beber leite com chocolate… A próxima semana, portanto…
- Eu já não sei o que fazer contigo. – suspirou e massajou as têmporas para aliviar a tensão. Ela não morreria. Ele não consideraria sequer a hipótese, pois não saberia o que fazer se o que ela augurava acontecesse. Antes de se debruçar sobre isso, havia inúmeros problemas a serem resolvidos. Um deles, e o mais importante para começar: Bill.
- Eu tenho que ir… - disse, depois de um longo silêncio. Não queria ter que deixá-la, mas precisava de falar com o irmão para o bem de todos. Tentar que, em conjunto, arranjassem uma solução viável para a situação em que se encontravam. Sem atribuir mais culpas, sem tornar consciências pesadas, sem querer mudar o que estava feito.
- Ir onde?
- Com o Bill… À cidade. – optou por omitir tudo o resto.
- Mas voltas, não voltas? – Ela pegou-lhe na mão grande, calejada e que encaixava perfeitamente na sua, ­­com medo que ele fosse e nunca mais voltasse. - Vais voltar para mim? Não me vais deixar agora que sabes que vou morrer, pois não? Não me abandones, Tom. Não me deixes aqui sozinha. – A impetuosidade de súplicas era involuntária, mas verdadeira.
- Eu volto – assegurou ele, desconfortável com aquelas palavras, soltando-se do aperto dos dedos dela. – Pensei que já me conhecesses o suficiente para saberes que este tipo de perguntas é completamente descabido, Kim.
- Desculpa – lamentou a morena, observando a mão dele longe da dela. Ele rejeitara o toque com facilidade. Teria tamanha facilidade em rejeitá-la também? Não queria que ele o fizesse. - Desculpa, Tom. Eu… Vai lá. Espera. Eu sou chata, não sou? E se for chata tu fartas-te de mim. – contrariando a soberania dos seus novos pensamentos, tornou a agarrá-lo na mão, numa procura silenciosa pela segurança que ele lhe proporcionava sempre que estava perto. Tinha medo que ele a rejeitasse depois de saber que morreria. Tinha medo de ficar sozinha e definhar até à morte, por mais que confiasse nele. Tinha medo e não percebia porque o tinha. - Eu não quero que te fartes e vás embora. Eu prometo que a partir de hoje nunca mais te chateio com as minhas coisas. Não te quero obrigar a preocupares-te mais comigo e juro que nunca mais te chamo quando precisar, nem que tenha partido a cabeça ou o nariz ou tenha pegado fogo a alguma coisa. Eu só não quero…
Ele descobrira há relativamente pouco tempo o método perfeito e mais aprazível que conhecia para fazê-la calar-se. Não com ordens ou palavras suaves, mas um pequeno gesto que a arrebatava e lhe cortava o raciocínio por completo. Tom sorrira com malícia quando ouviu os seus lamentos em francês e fixou o olhar demoradamente nos lábios que se moviam de forma atrapalhada, soltando palavras desconexas que ele não conseguia perceber. Então, acenou diversas vezes com ironia como se conseguisse percebê-la na perfeição e aproximou-se dela para poder colocar o seu método perfeito em prática. Na verdade, fizera-o porque quisera muito beijá-la; porque a sua falsa confiança não o deixava descartar totalmente a hipótese de que ela tinha realmente uma semana de vida; porque queria ignorar que ela era aquele ser frágil e assustado e provar o lado feminino dela.
O beijo foi suave. Não como ele queria que fosse, mas forçara os lábios dela de forma delicada, porém exigente, à procura de resposta rápida, sem a afugentar. Ele conseguiu rir quando a sentiu suspirar e relaxar contra si, por concluir que passado pouco tempo ela ainda conseguia estremecer com o gesto novo. O sorriso deixou de ser afável quando percebeu que não queria um simples beijo cheio de limites. O sorriso tornou-se quente e sedutor quando percebeu que tinha querido aquele beijo e que queria tantos outros. O sorriso morreu quando percebeu que o timing estava totalmente errado para qualquer tipo de intimidade com ela.
- Não percebo nada quando falas em francês. – murmurou contra os lábios dela, na sua língua natal, fechando os olhos e encostando a sua testa à dela.
- O quê?
- É isso mesmo.
Kim não percebeu, mas não insistiu.
- Adoro quando o fazes. Esqueço sempre tudo e é tão…
Ela ousou erguer a mão para tocar nos lábios dele, maravilhada com a sua textura suave, com o piercing que contrastava com toda aquela beleza natural.
- Eu tenho de ir. – avisou Tom, surpreso com as carícias da rapariga. Depois do que Andreas lhe fizera, não esperara sequer resposta para aquele beijo reflexo.
Kim substituiu os dedos curiosos pelos lábios, ansiando pelos dele novamente. Tom acedeu ávido ao primeiro contacto e tornou a beijá-la. Ergueu a mão e afagou a nuca dela, pressionando-a ocasionalmente, acabando por trazê-la para si. Ela deixou-se escorregar do colchão para o chão, para se colocar de joelhos como ele, contra ele, e então Tom soube que tinha que parar. Ele podia saber lidar com mulheres, mas com Kim era tudo tão diferente que se sentia um mero leigo em matéria de sedução.
- Acho que tenho que ir. De vez. – tornou a avisar com um sorriso divertido. E ela respondeu devolvendo o sorriso, limpo de quaisquer sombras de morte que ainda pudessem pairar sobre ela. Claro que pairavam e Kim pensaria vezes e vezes sem conta no que faria para sobreviver, todavia só o faria quando Tom se fosse. E no que dependesse dela, mantê-lo-ia perto de si o dia todo. Se dependesse dela…

Capítulo 37



Dia 81

Bill acordara cedo, para sua surpresa. Depois do conflito da noite anterior, do colchão pouco confortável e do stress característico de uma viagem com destino incerto, fora impossível gozar de longas horas de sono. Não podia deixar de projectar o dia seguinte mentalmente, pensar que em poucas horas passaria a fronteira e se depararia com um país desconhecido. Não conseguia prever a situação no Canadá, mas era tarde demais para voltar atrás. Seria tudo ou nada. Chegaria ao Canadá, conseguiria um meio de transporte para regressar à Europa, talvez no dia seguinte estivesse em casa, a abraçar os pais, e não deitado ao lado da namorada, num quarto de pousada de beira de estrada.
Com pensamentos mais risonhos, permitiu-se descontrair e então sentiu-a contra si. Rachel aninhara-se nele em busca de calor. As últimas noites já deixavam notar o Outono que se avizinhava e ele não se podia queixar por isso. Sem abrir os olhos, abraçou-a e deslizou uma mão pela barriga dela. Brincou com o umbigo dela e apaixonou-se um pouco mais só pelo protesto ensonado da loira que se aconchegara ainda mais contra si. Ele sorriu e depositou beijos preguiçosos sobre a nuca e ombro descobertos durante tempo suficiente para ela murmurar, ensonada:
- Hum… Casa comigo. – O sorriso de Bill alargou-se imediatamente. – Las Vegas, amor, e casamos para eu poder dormir contigo e acordar assim para sempre. Legalmente. Tipo um certificado de exclusividade ou algo do género… De obrigatoriedade matinal… De beijinhos enquanto despertador matrimonial perfeito… Para que é que interessa o termo?
Ele riu-se com os murmúrios disparatados da rapariga que, pelo seu tom de voz lento e sussurrante, indicavam que ainda não acordara.
- Não estás a dizer coisa com coisa, mas um dia será para sempre.
Ela sorriu deliciada e virou-se de forma a encontrar os olhos dele, pela primeira vez naquela manhã. Com uma lentidão digna de uma preguiça, deitou a cabeça na almofada dele e fechou os olhos à espera de um beijo de bom-dia, que não tardou a receber.
- Sabes o que me apetece? – quebrou o silêncio, roçando nos lábios dele, numa carícia leve e ensonada. - Um pequeno-almoço assim… - Ao dar-se conta do que dissera desde que acordara, abriu os olhos e olhou para o namorado como se o visse pela primeira vez e a primeira impressão não fosse a mais risonha. – Oh, ainda aqui estamos enfiados, não é? – fez uma careta quando ele riu. - Odeio quando me acordas assim. É tudo tão cor-de-rosa que me esqueço das coisas. És horrível. – Tentou afastá-lo, num amuo fingido que só serviu para que ele se arrastasse vagarosamente para cima dela.
- És fantástica a mudar de ideias. E eu pelos vistos fui promovido a fantástico a fazer-te esquecer das coisas – comentou, divertido. - Volta ao mundo cor-de-rosa – pediu, roçando o nariz no maxilar dela.
- Esquece o cor-de-rosa. Que tom de voz é esse? – Mais depressa do que ele esperava, ela entreabriu as pernas, para que ele se pudesse encaixar perfeitamente entre elas, e puxou-o mais para si, num abraço apertado. Ele parecia extremamente atraente daquela perspectiva. O tom de voz ensonado, grave, arrastado; os pequenos pontos de barba que adornavam o rosto magro e perfeito; os lábios secos que pediam para ser beijados; os olhos inchados ou os cabelos negros revoltos e despenteados. Tudo nele parecia irresistível naquela manhã. Não resistiu passar os dedos esguios por entre o cabelo dele e puxá-lo para mais perto, perto o suficiente para lhe morder o lábio inferior em provocação. – Falava a sério quando disse que queria acordar assim para sempre.
Bill aceitou o beijo como se dependesse dele, mas a sua cabeça não pôde envolver-se de pensamentos fatalistas enquanto envolvia a sua língua na dela e a acariciava. A questão temporal era tão breve… Ela quase morrera e ele não conseguira fazer nada para a salvar. Ele poderia adoecer em breve e não haveria outro milagre para salvá-lo. No seu egoísmo natural, tal situação não o afligia. Pior seria se ela voltasse a adoecer, se ambos tivessem um fim inesperado e precoce por outro motivo qualquer.
Desde o início que se habituaram a ter a distância a interpor-se na relação dos dois. Quando ele vivera em Los Angeles, fora fácil alimentar aquele amor e fazê-lo crescer, explorar todos os frémitos daquela relação para poderem acreditar num futuro para ela. Depois, ela ficara. Ele voltara para a Alemanha. Acabaram por se habituarem àquela relação mais platónica, sem toque, sem gestos, sem olhares, sem que pudessem consumir o fogo não extinto que com o tempo passara a arder apenas em brasas quentes.  
Naquele momento viviam realmente juntos. Viviam tudo juntos. Sobreviviam juntos. Toda aquela situação caótica de sobrevivência servira para os aproximar mais, contudo as dúvidas e incertezas continuavam a caminhar lado a lado naquela relação. O que seria para sempre para eles?
Bill parou de a beijar para a fitar languidamente. Acariciou o rosto dela e declarou-se pela enésima vez, num tom sério que não admitia qualquer descrença ou brincadeira da parte dela. Era o que sentia, por palavras, sem romance, sem demasiados floreados para que embelezasse a declaração. Amor, simplesmente.
- Amo-te, Rachel.
Ela sorriu lentamente e encostou a testa à dele, apreciando o silêncio, retribuindo as suas palavras da melhor maneira que conhecia. Por gestos. Ele beijou-a de novo, com suavidade, preguiçoso para ir mais longe. Para além de a amar, queria-a e ela sabia isso. Receptiva, ela acariciou-lhe as costas nuas com uma lentidão interminável, as nádegas pequenas, e puxou os boxers dele para baixo, deleitando-se com a pele arrepiada sobre si. O desejo que sentia por ele era morno, doce, e fervilhava em doses comedidas… Queria fazer amor com ele como se não existisse uma doença, como se não houvesse a preocupação do regresso a casa, como se não houvesse uma longa viagem a ser feita nas próximas horas. Lento, apaixonado, como há muito mereciam. Mereciam um momento só deles e ambos sabiam que aquela era a oportunidade certa.
Seria o momento perfeito se ninguém tivesse ousado bater à porta como se estivesse a ser perseguido por um psicopata.
- Tu fecha os olhos assim que eu sair daqui, porque a pessoa que está lá fora vai ter uma morte bem feia! Dolorosa, lenta, sádica…! – Bill aumentou o tom de voz, para que a visita indesejada ouvisse.
No entanto, o bater aumentou e Bill ouviu a voz do irmão gritar por ele. Alarmado, fitou Rachel e saiu de cima da namorada como se ela tivesse ganho espinhos de repente. Puxou os boxers para cima e esperou que a gritaria actuasse sobre a tremenda erecção que precisava ser urgentemente escondida.
- O que foi?
 Tom parecia nervoso assim que o mais novo lhe abriu a porta. Pálido, de respiração irregular e um misto de raiva e medo no olhar.  
- Fomos assaltados. – informou de forma clara e concisa assim que entrou na suite, sem perceber o que estivera prestes a interromper.
- Como assim? Assaltados? – Bill não sabia se havia de colocar as mãos a cobrir os boxers, se para cobrir a boca aberta.
- Vê as tuas coisas. Vê tudo.
- Roubaram-te? – Rachel levantou-se da cama quase imediatamente para rectificar se ainda possuía todos os bens necessários que levara para passar a noite.
- Roubaram-nos. O carro. O teu carro. Dinheiro.
Ela correu para o pequeno móvel onde deixara a sua mala. Desaparecera. Tom dizia a verdade. Os seus documentos, as chaves, tudo o que possuía de essencial desaparecera.
- Oh meu deus. – Rachel recuou, visivelmente perturbada com aquele novo problema adicional. Sentou-se na cama, sem alento, perplexa. – Como é que não demos por nada?
- Foda-se! – explodiu Bill, depois de procurar os seus pertences. - Eu não acredito nisto! Já falaram com os donos desta espelunca?!
- Não.
- Não?! Como não? Fomos assaltados e eles têm que fazer alguma coisa. No mínimo…
- Já fizeram, Bill. – Tom gostaria de poder acalmar-se para que o irmão também o fizesse, mas tudo o que queria era que Bill percebesse de quem era a culpa daquela situação toda. – Foram eles.
- Isto não nos está a acontecer… - O pânico era patente na voz da loira. – E agora?
Bill parecia desorientado, andando de um lado para o outro, semi-nu, à espera de uma solução caída do céu. Estava entre a espada e a parede e Tom esperava sinceramente que ele percebesse o erro que cometera ao ingressar naquela aventura.
- Devias saber que isto ia correr mal, Bill. Eu cheguei a avisar-te… - começou, incomodado com a perturbação do gémeo.
- Cala-te, Tom. – berrou o mais novo, visivelmente alterado. - Isso agora não. A questão agora é que estamos numa merda de cidade deserta sem nada. SEM NADA! – gritou, como se os culpados fossem Tom e Rachel, os únicos que não tinham culpa alguma. Ninguém tinha. - Calma, Bill. Temos dinheiro. É isso. Que pelo menos um de nós tenha dinheiro… - falou consigo mesmo, para se mentalizar que existia um desfecho mais feliz naquele pesadelo. - Eu preciso que venhas comigo. – ordenou para Tom.
- Ir onde? – perguntou Rachel.
- Temos que ir à cidade. Precisamos de um carro. Precisamos… - Ele não conseguia simplesmente pensar com coerência. Apenas uma coisa lhe vinha a cabeça. – Temos que sair daqui.
- Bill…
- Hoje! Temos que ir embora hoje. – gritou, pontapeando a sua mala parcialmente vazia. – Isto não era sequer uma opção. Eu não tinha planeado nada disto!
Rachel não sabia o que dizer para acalmá-lo quando a própria se sentia falhada, inútil e perdida no meio do nada, sem nada. Tom teve sangue frio pelos três e confrontou o irmão à beira da histeria.
- Paras com esse ar de cu? – quebrou o monólogo egoísta do irmão e argumentou sem rodeios. - Foste tu que nos meteste nesta alhada, não te armes já em vítima e faz-te um homem. Eu avisei-te!
- Cala-te – Bill tornou a gritar. - Eu não vos obriguei a sair de Los Angeles. Eu disse que eu queria voltar. Sabes que eu ia sair de lá mais tarde ou mais cedo.
- Claro, Bill. – Ali estava o defeito mais detestável do seu irmão gémeo: o egoísmo. Tornava-se detestável quando pensava para dentro, exclusivamente no seu umbigo. - Tu decidiste voltar para tu sobreviveres e nós ficávamos lá, para morrer... – Tom engoliu em seco ao sentir-se ir longe de mais. Bill não o faria. Amava-o, amava Rachel, amava o grupo de amigos que arrastara para aquele buraco sem fundo. - E se ficássemos tu nunca mais nos perdoarias porque tu é que sabes o que está certo.
- Tom… - Rachel já vira inúmeras discussões serem iniciadas por motivos menores. Dois irmãos gémeos virados um contra o outro naquela situação não abonava a favor de ninguém. Eles teriam de se apoiar, serem o pilar um do outro como há mais de vinte anos o eram.
- Não, Rachel! – contrariou o mais velho, disposto a dizer tudo o que sentia que devia dizer, mesmo que fosse injusto ou exagerado. - Alguém precisa de lhe dizer que isto já foi bem longe com esta brincadeira de turistas falidos. Estamos fodidos, consegues perceber?! – dirigiu-se ao irmão irado pelas acusações de Tom, nervoso por não saber o que fazer. - Por causa dele e ainda se arma em vítima. Consegues arranjar um solução sozinho, agora?
Bill deu-lhe um forte encontrão e murmurou, cego de raiva:
- Vai-te foder, egoísta de merda!
Felizmente, os insultos não tiveram resposta pois Tom não teve oportunidade de o fazer. Sabia que partiria para a violência mais cedo ou mais tarde.
- Fomos assaltados! – interrompeu Natalie, na altura certa, pelos motivos errados. - A minha mala… desapareceu tudo. Documentos, dinheiro, oh meu Deus. – enumerou nervosa o suficiente para não conseguir articular bem as palavras em alemão. - Tom, a Kim… Ela não está nada bem. Achei que talvez tu…
Tom conteve o impulso ridículo de fazer perguntas desconexas sobre o bem-estar de Kim e mentalizou-se que a morena talvez tivesse apenas assustada, o que era plausível.
- Eu já venho antes que isto azede completamente.
Virou as costas ao irmão pronto para a disputa e saiu para atender Kim.
Assim que entrou no quarto dela, percebeu-a cabisbaixa, trémula e verdadeiramente assustada. Mais do que na noite anterior.
- Kim – chamou, para captar a atenção da rapariga apática.
Ela ergueu o olhar passado algum tempo e o que Tom viu nele petrificou-o.
- Eu vou morrer, Tom. Agora tu não me podes salvar.

Capítulo 36


Kim tremia e sentiu a ansiedade tomar conta de si. O peito doía, sentia calafrios por todo o corpo, a sua cabeça ia explodir a qualquer momento. Não estava preparada para a violência das memórias. Ela não conseguia perceber o que era, mas a dor daquele dia instalou-se novamente e fê-la regressar lá, ao casebre, ao toque nojento daquele homem que a violentara da pior maneira.
Também não estava preparada para que Tom entrasse na casa de banho, com a preocupação patente no olhar, e a fitasse com uma expressão de lamento. Ela também lamentava. Lamentava bastante não conseguir lidar com as memórias novas. Não conseguir lidar com Tom depois de tudo o que vivenciara.
Então, ergueu-se de um salto e fez o que devia ter feito há mais tempo.
Empurrou Tom sem enfrentar o seu olhar novamente e correu para fora da divisão. Apressada, saiu da suite, ignorando os chamamentos de Rachel. Tinha apenas que se concentrar naquilo que ia fazer, naquilo que sentia.
Antes de pensar sequer em desistir, bateu à porta do quarto ao fundo do corredor. Parte de si queria que ninguém a abrisse, que pudesse voltar à casa de banho, que pudesse sair daquela pensão, da vida deles. A outra parte manteve-a firme, à espera. Bill abriu a porta e ela estacou por completo. Então, ignorando toda a gente, avançou para ele. Quase empurrou Bill para conseguir passar e, apesar de sentir o pânico invadi-la, aproximou-se o suficiente de Andreas para o fitar nos olhos.
- Mudaste de ideias?
O murmúrio do loiro em tom jocoso fê-la voltar a sentir as mãos dele sobre o seu corpo, os lábios, a língua… Ele provocou-a de novo, levantando-se da cama e avançado lentamente para a rapariga, que não recuou um único passo. Bill preparou-se para mandar o amigo se calar, mas Kim agiu primeiro. Assim que a malícia regressou ao rosto do rapaz ainda bêbedo, ela não pode evitar e desferiu um estalo na face afogueada dele. O som seco da bofetada ecoou na divisão, chocando os presentes. Chocando-a. Não obstante, assegurou num tom demasiado sério:
- Tu nunca mais me voltas a tocar sem eu querer. Nunca mais ninguém o vai fazer e és o primeiro a ficar avisado. Nunca mais. – Sentiu a voz tremer e o instinto dizia-lhe para sair daquele quarto imediatamente, esconder-se até se livrar daquele medo quase doentio. Ainda assim, a expressão atónita do rapaz, com a mão sobre a face magoada, fê-la continuar. – Sou uma pessoa, caso ninguém ainda tenha reparado. Posso ser burra e infantil e inocente e tudo o que as pessoas normais devem pensar de mim, mas estou farta de ser magoada e de ter medo. Nunca mais me tocas, Andreas. Não voltes a tentar.
Andreas não esperara uma reacção daquelas. Na verdade, os seus pensamentos ainda iam e vinham de forma extremamente lenta, não se apercebera do que realmente fizera à rapariga até ela o confrontar daquela maneira. Tom esmurrara-o e ameaçara-o, Bill e Georg massacraram-no quase até à exaustão nos últimos minutos, mas nada surtira o efeito do gesto inesperado de Kim. Ainda atordoado, balbuciou, sem jeito:
- Eu pensei que tu quisesses…
- Eu implorei para que parasses! – interrompeu a rapariga lutando contra os tremores que a envolviam. – Eu só queria que parasses…
As memórias do homem sobre ela atingiram-na da pior maneira. A imagem Andreas misturava-se naquelas recordações dolorosas e ela não se conseguiria conter por muito mais tempo. Quisera o respeito dele, recobrar a sua dignidade e provar que era suficientemente capaz de se defender a si mesma. Mas não era.
Porque não conhecia o orgulho ou a arrogância, saiu do quarto tão rapidamente como entrou.
Ela soube que Tom a seguia mesmo sem ter que se virar para trás. Surpreendeu-a por fazê-lo sem dizer nada, sem a acusar, sem a confortar. Ela só teve a certeza da sua presença quando ele lhe abriu a porta do quarto que partilharia com Natalie, o quarto onde Andreas a tratara como lixo. Kim entrou e trancou a porta imediatamente, encostando-se a ela e fechando os olhos. Apesar de tudo, destruíra uma enorme barreira ao confrontar Andreas. Sentira confiança em si mesma pela primeira vez, mesmo que por míseros segundos.
- Estás bem? – perguntou Tom, seguido de um silêncio cortante. Ele queria perguntar inúmeras coisas, mas não o podia fazer. Não já.
- Não – respondeu a morena, ganhando coragem para o fitar. No silêncio esmagador da divisão, sob o olhar intenso do rapaz, ela não se conseguiu conter. Desencostou-se da porta e avançou para ele com o ímpeto de uma criança assustada. Abraçou-o com força, como se não o visse há anos, como se se tratasse de uma despedida calorosa e não a busca de simples conforto. O rapaz recuou com a força do impacto e teriam caído, se por instinto não a agarrasse.
- Kim…
- Apenas… abraça-me como antes. – ela pediu contra o pescoço dele, num tom rouco que não admitia recusa. – Abraça-me, Tom.
Ele não soube o que dizer e ergueu as mãos para lhe acariciar as costas temerosamente, os cabelos sedosos, numa tentativa inútil de a acalmar quando nem ele mesmo sabia como isso se fazia.
- Costuma ser fácil esquecer quando estou contigo, mas hoje… – sussurrou contra a pele dele. Ele estremeceu com o contacto, algo que ela não percebera. Kim tremia tanto e a sua respiração era tão acelerada e irregular que Tom pensou por momentos que ela iria cair num pranto. E ele não saberia como reagir se assim fosse. – Faz-me esquecer, por favor – suplicou.
Ele limitou-se a estreitá-la contra si, sem poder fazer mais nada. Queria muito confortá-la, mas não sabia como o fazer.
- Isto não vai voltar a acontecer – disse, arrependendo-se de imediato. Qualquer palavra que dissesse naquela situação lhe soaria ridícula.
- Sim, vai. Eu sei que vai – insistiu a rapariga, debatendo-se contra a necessidade de estar nos braços dele e a desconfiança por ele ser um homem, por lhe tocar, por não saber o que ele era capaz de fazer. Ainda assim, não o soltou nem deixou que ele a soltasse. Apoiou o queixo no ombro dele e fitou a parede distraidamente. Não lhe podia dizer a confusão que se instalara na sua cabeça, tinha medo de lhe dizer que se lembrara de algo.
– Porque é que as pessoas me fazem mal, Tom? – perguntou. Uma pessoa normal consideraria a questão retórica, como Tom fez, contudo Kim precisava de uma resposta. - Eu nunca lhes fiz mal. Mal me percebo, mas toda a gente tem tendência a magoar-me. - Até tu, pensou. - E eu estou farta de ser magoada. – Sem alento, soltou-se dele quando a sensação de solidão se abateu sobre ela da pior maneira.
- Já passou.
Ela ia chorar, ele sabia. Pela primeira vez, sabia que ela ia desabar. E merecia. Kim era frágil e só uma pessoa obtusa não perceberia isso depois de apenas algumas horas com ela. Andreas era uma dessas pessoas, por muito bom amigo que pudesse ser.
- Ele não te quis magoar… Ele só estava…
- A magoar-me – contrariou, afastando-se. Olhou para a colcha desalinhada sobre a cama, para o lençol branco que ela descobrira no meio da luta desesperada para se soltar de Andreas, e reviveu tudo uma vez mais. - E tocou-me. Eu disse-lhe para parar! Ele beijou-me, tocou-me, insistiu e tentou despir-me. Mas nunca, nunca me abraçou assim. Será que ninguém percebe? Eu quis sentir-me segura e gostar de tudo aquilo, mas só me senti enojada. E assustada. Eu odeio isto, Tom.
- Eu sei… - E foi por sabê-lo que se sentira igualmente assustado quando ouvira Kim gritar. Uma pontada de ciúme atacara--o quando vira Andreas sobre ela. O sentimento fora então drasticamente substituído por uma fúria enorme que mal conseguira disfarçar.
- Tu prometeste que ninguém me faria mal e não cumpriste. Eu disse que não queria voltar e ninguém me ouviu…
- Desculpa.
- A culpa não é tua. Eu é que estou a mais aqui e sou perfeita para que me usem. Mas a culpa também não é minha! – quase gritou, revoltada. – Eu não tenho culpa de não me lembrar, de não perceber, de ser como sou. Eu não escolhi ser assim! As coisas só vão mudar quando eu mudar, não é?
Tom não queria ouvi-la menosprezar-se daquela forma. Kim era especial. Diferente, sem dúvida, mas cativante à sua maneira.
- Tu não precisas de mudar – assegurou, sério. – Mas o que tu fizeste agora…
- Não devia ter feito, eu sei. – interrompeu ela, acabando por se sentar no chão. Tudo menos aquela cama. - Eu não lhe queria ter batido, mas queria! Só queria que ele sentisse metade do que senti e… Isto faz de mim uma pessoa horrível. – cobriu a face envergonhada com as mãos e esperou pelo sermão.
Tom surpreendeu-a uma vez mais por sentar-se ao seu lado no chão, mantendo uma distância que ela agradeceu mentalmente.
- O que tu fizeste agora foi acertado. Uma vez disseste-me que eu era a melhor pessoa que tu conhecias. – relembrou com um sorriso característico. – Por acaso sabes quantas vezes já bati no Andreas? Foram mesmo muitas. – Pouca ou quase nenhuma briga entre ele e Andreas foram séria, mas Kim não teria de o saber. - Sou uma pessoa horrível?
Ele brincava, tentando aligeirar a tensão entre eles. Viu os lábios de Kim contraírem-se ligeiramente, mas depressa ficou séria novamente.
- Ele também te tentou despir?
- Ele não estaria vivo para repetir a proeza se já o tivesse tentado. Felizmente só tive raparigas a tentarem despir-me e eu fui sempre um cavalheiro e…
Cala-te, Tom. Teria de estar louco por estar prestes a fazer uma insinuação sexual depois do medo que vira no olhar dela. - Ele não é mau, Kim. – defendeu, apesar de tudo. – Ele é só irresponsável e infantil, mas nunca o vi magoar ninguém de propósito.
Kim não respondeu e fitou-o demoradamente. Olhou para ambas as pernas cruzadas, como se fossem crianças de novo a assistir à narração do livro de contos preferido.
- Obrigada por tudo. – agradeceu, embora sem sorrir, sem conseguir contar-lhe aquilo que se lembrara.
- Ficas bem?
Não.
- Fico. – Ela tentou sorrir, quando ele se levantou do chão.
- Até amanhã, então. – Tom não soube como se despedir dela e então esperou. Esperou por algo que não sabia o que era.
- Até amanhã.
Ele acenou e abriu a porta.
- Tom.
Ele tornou a virar-se, com um novo sorriso no rosto.
Fica aqui comigo. Só hoje.
- Dorme bem… - Foi a única coisa que ela pode dizer. Ele não ficaria. Naquela manhã fora desprezada por ele, não queria sê-lo de novo.
- Claro…
Ele voltou a sorrir, apesar de desiludido consigo mesmo. Saiu do quarto sem dizer mais nada e rogou algumas pragas sem destino enquanto caminhava vagarosamente para o seu.
Ela sorriu pela primeira vez naquela noite difícil e concluiu que Tom nunca a desiludiria, mesmo que se esforçasse para isso. Pedira-lhe para a fazer esquecer. Ele não se apercebera, mas conseguira que ela esquecesse por momentos.
Mas agora estava sozinha. E, embora tudo se tornasse negro de novo, tudo se tornasse confuso, ela não verteu uma única lágrima.