Tom expirou fundo assim que fechou a porta do quarto de Kim. O que quer que fosse que acabara de acontecer entre eles, ele não queria pensar muito nisso. Não chegaria a conclusão viável alguma, não chegaria a saber se devia seguir por aquele caminho na relação de ambos, sendo ela quem era, se devia parar, precisamente por ela ser quem era. Por tudo isto e por voltar a sentir-se um adolescente hormona e mentalmente descontrolado, ainda que com mais responsabilidades do que o Obama, decidiu não pensar em Kim nem no significado de todas aquelas carícias bem mais íntimas que poderiam mudar a visão que ela tinha dele.
Decidiu sair do hotel, na esperança de ainda encontrar Bill. Apesar da discussão infantil, não podia deixá-lo sair para uma cidade desconhecida, sabendo o que lhe poderia acontecer. Para seu alívio, Bill entrava no carro no preciso momento em que saíra. Rachel subia as escadas do alpendre com o sorriso que ele tão bem conhecia e que tentava evitar.
- Estava a ver que não – comentou a loira, piscando-lhe o olho e socando-lhe o ombro de forma amigável. Ele sorriu e apertou-lhe o nariz, despedindo-se dela. Antes que o irmão saísse, apressou-se a entrar no carro. Bill olhou para ele, em desafio, e ergueu um sobrolho, um gesto que Tom desprezou mais do que tudo. O ambiente dentro do carro era tenso, mas iriam juntos à cidade, a bem ou a mal. Teriam de estar juntos naquilo, ignorando quaisquer birras ou amuos.
- Dás à chave ou estás à espera que isto ande sozinho? – lembrou Tom, valendo-se do seu sarcasmo natural para que o irmão achasse ter chegado ao seu limite da paciência. Não perguntou porque o das tranças o acompanhava, não o mandou embora, não lhe dirigiu uma única palavra. Ligou a ignição e fez marcha atrás no carro alugado em LA. O único que restava.
Tom mantinha o porta-luvas há algum tempo aberto e fazia questão de revirar todo o seu conteúdo da forma mais irritante que conseguira arranjar. Na verdade, fazia-o porque se sentia entediado e porque não queria falar com o irmão. Não queria ter que ser ele a engolir o orgulho e a pedir-lhe desculpa pelo que dissera quando não se mostrava arrependido e voltaria a dizê-lo. Não queria que Bill o desprezasse e queria muito falar com ele, no entanto recusava-se a ser o primeiro a ceder. Entretanto esticaria a corda um pouco mais; ele saberia quando partisse.
Com um sorriso dissimulado, destapou uma das canetas que tirara no pequeno compartimento e tirou uma das inúmeras máscaras que lá havia. Colocou-a no rosto e, valendo-se do espelho das palas pára-sol, desenhou um smile sobre o tecido branco. Esmerou-se nos detalhes e ficou contente com o resultado final. Depois do momento infantil, ligou o rádio e a música country tirou lugar ao silêncio pesado.
Uns grandes olhos, raiados de sangue, baços e sem vida pareciam fitá-lo com intensidade. A boca entreaberta e coberta de sangue, as enormes bolhas, os hematomas na pele e o grande inchaço nos membros despidos confirmaram o que ele se recusava a pensar. Tropeçara num corpo.
Bill rodou o pescoço para aliviar a tensão muscular e para abstrair-se do tipo de música que lhe trazia memórias pouco sedutoras.
A fraca luz incidia sobre ele, intensificando o olhar do homem, dando-lhe uma tonalidade quase psicadélica; a melodia melancólica country adensava o ambiente e o cheiro, felizmente, já não se fazia sentir. Bill sentira-se invadido pelo pânico que todos os seus sentidos, excepto a visão, pareciam não existir.
Piscou os olhos diversas vezes, reduziu a velocidade do veículo e acabou com o suplício.
- Ok, já chega – desligou o rádio abruptamente, declarando guerra. – Isso está a irritar-me.
- Temos pena. – Com um sorriso provocatório, o mais velho tornou a ligar o aparelho e então soube: a corda partira. A paciência de Bill acabara e ainda não tinham encontrado vivalma nas ruas.
- Então é isto? Resolveste amuar como um puto mimado de cinco anos? Lamento informar-te de que não temos tempo para mariquices dessas – explodiu Bill, como Tom já esperava há algum tempo. Tom podia continuar a discussão iniciada no quarto, mas sentia-se cansado de infantilidades e rivalidades.
- Vira à esquerda – disse apenas, num tom tão calmo que quase fez o mais novo saltar do banco para que lhe pudesse bater com a cabeça no vidro várias vezes até que reagisse como um Kaulitz!
Bill leu a indicação da tabuleta e resolveu ignorar a sugestão.
- Quem é que está de birra, afinal? – contrapôs Tom, ao ver que o irmão seguira em frente só para o contrariar. Era tão anormal, por vezes, que se não fossem tão iguais, até a discutir, ele teria dúvidas quanto à sua relação de parentesco. – Estás parvo? Eu disse para…
- Virar à esquerda. – Bill adquirira um moderado de voz, como o irmão fizera. - Eu conduzo. Eu digo que é em frente.
Tom tirou a máscara com alguma brusquidão e lançou-a para o tablier.
- Ouve puto, estou contigo por aqui! – Puxou uma das tranças negras. - Fartinho das tuas merdas, por isso vê se atinas!
Bill disfarçou um sorriso presunçoso por ver que o gémeo finalmente reagia. Então, sem tirar os olhos da estrada, continuou em tom calmo:
- Eu não te pedi para vires.
Sim, pedira, mas Tom não iria relembrá-lo do facto quando ambos ainda tinham o pedido bem fresco na cabeça.
- Eu também não! – ripostou o das tranças, referindo-se àquela viagem. Ao facto de terem saído da Califórnia em direcção ao Canadá, sem certezas de nada.
- O problema é que eu não penso só em mim, idiota! – Tom queria ter rido, mas a situação era demasiado ridícula para sequer rir. Viera com Bill para o proteger e sabia que se lho dissesse, ele nunca lhe agradeceria. Se havia coisa que Bill nunca conheceria da sua parte era o egoísmo. Faria tudo por ele e só um demente não teria percebido ainda.
- Eu sou egoísta, não é? – continuou Bill, como se conseguisse ler a mente do irmão. - Idiota, infantil, imponderado, maluco e doente. Sou isso tudo, mas o que é bom é que quando nos lixamos, o Bill é que arca com as culpas. O Bill é que tem culpa de não conseguirmos sair daqui. O Bill é que tem culpa da namorada quase ter morrido por uma doença estúpida vinda de sei lá onde! De ter sido o único a tomar uma decisão, decente ou não, mas a única, para sairmos daquele beco sem saída. O Bill é que tem a culpa de termos sido assaltados. O Bill é que tem sempre culpa desse teu feitiozinho de merda e o Bill…
- TRAVA!
Bill obedeceu prontamente, num gesto automático, sem saber a razão para o berro repentino de Tom. Depois de travar a fundo, percebeu a razão do alarme. Antes que pudesse dizer alguma coisa, o gémeo já saíra do carro, levando a máscara pintada e umas luvas descartáveis. Percebeu o que ele ia fazer e seguiu-o, embora contrariado. As pernas tremiam ao andar, a respiração tornara-se irregular. Tê-lo-ia atropelado, pensou ao aproximar-se do menino caído no alcatrão. Tê-lo-ia feito se os reflexos de Tom não o tivessem impedido.
A criança não se movia, olhava fixamente para um grande portão branco, do outro lado da estrada, para uma modesta casa cujo cão de guarda latia incessantemente, como se comunicasse com ele. Bill apressou o passo e chamou Tom, que não lhe respondeu.
- Olá - cumprimentou Tom, agachando-se perto do rapaz. Apesar do sorriso trémulo, ele não sabia o que fazer. Há semanas encontrara uma rapariga caída no chão e levara-a para casa porque não conseguira ignorar a sua debilidade. Desta vez, porém, a situação era mais grave. Salvara Kim, mas aquela criança não teria salvação. As manchas no corpo franzino, a respiração acelerada e os olhos baços e raiados de sangue, que agora se dirigiam a si, curiosos, não eram indicadores de saúde.
- Dói – queixou-se, fazendo uma careta aflita. Sem se conseguir conter, soluçou assustado, sem que qualquer lágrima saísse dos seus olhos.
- Tom… - chamou Bill novamente, sentindo o coração mirrar face a impotência que ambos tinham perante o sofrimento do pequeno.
- Os teus pais? – insistiu Tom.
- Papá.
- Tom. – repetiu Bill, acabando por ser ignorado.
- Sim, onde está o teu papá?
- Mamã. – O menino tornou a soluçar e a olhar para o cão barulhento e agitado.
- Ele está doente, Tom… - balbuciou Bill, ajeitando a máscara sobre o rosto e agachando-se ao lado do seu semelhante. A criança fitou-o com os seus olhos grandes, suplicantes, e foi impossível resistir. – Gott, ele está doente. – Tocou-lhe na mãozinha e sentiu-a fria contra a sua, através do fino látex. Em resposta, o rapazinho apertou a mão grande, com uma força débil que terminou com uma tosse repentina. Bill estremeceu e preparava-se para tomar uma decisão de que se arrependeria no instante seguinte quando algo frio pressionou a sua nuca descoberta.
- Larga-o já!
Ambos olharam para o dono da voz, um homem aparentemente civilizado, vestido de forma elegante e cuidada que não escondia as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto, misturando-se com o suor intenso. Atrás dele, viera o cão que correra para perto da criança e o cheirara, até lhe lamber o rosto.
Bill poderia ter-se emocionado com a cena, tal como Tom, se não tivesse uma arma apontada à cabeça, se não sentisse o pânico invadi-lo. Tom tentou manter a calma pelos dois e levantou-se devagar, sem deixar de fitar o homem irado.
- Nós podemos ajudar – disse, erguendo as mãos para que ele percebesse que não iriam magoar ninguém.
- Sai daqui imediatamente! – gritou, apontando a arma a Tom e limpando o rosto com o braço. O calor abrasador não ajudava ninguém a pensar com clareza e a confusão, medo e raiva tomavam conta da expressão do homem. – Não! Tu… - Puxou Bill, que aproveitara para fugir do seu alcance e engoliu em seco. Estava derrotado e isso tornara-se evidente. – Ajuda-me – suplicou puxando-o violentamente para si. – Ajuda-me.
Bill não ousou sequer piscar os olhos. Sentiu o estômago revolver-se com o toque molhado do homem, com a expressão dele. Algo que ele já vira antes.
– Estás com febre, Rachel. – afirmou ao tocar a sua pele escaldante.
- Não há médicos e não tenho febre nenhuma. Só calor.
- Mas posso…
- NÃO! – berrou a rapariga, empurrando-o para longe de si com a força que o seu corpo debilitado concedia. – Não podes e pára de me chatear a cabeça que já me dói o suficiente. – tornou a gritar, agarrando-se à cabeça e fechando os olhos com força, num esgar de dor, e deixou-se escorregar até ao chão.
- Rach… - Ela nunca o tratara daquela forma. Nem mesmo quando tinha razões para o fazer. Nunca. Sempre fora carinhosa, apaixonada e nunca o afastara assim. Bill não queria pensar naquilo como um ataque pessoal e ignorando a afronta, ajudou-a a erguer-se.
- Vem…
- Eu disse que não. – esperneou e tornou a empurrá-lo, a esmurrá-lo cegamente para que se afastasse. – Deixa-me em paz. Pára de andar feito carraça atrás de mim como se eu fosse de porcelana. – gemeu, puxando os cabelos, como se estivesse a lutar contra algo que não ele. O alvo não podia ser ele. Não havia razões. Não obstante, Bill sentiu-se atingido.
- O quê?
- Deixa-me. – choramingou, apesar da súbita irritação.
Ele também estava doente. E tocava-lhe. Agarrava-o como se a sua vida dependesse disso.
- É o pai dele? – Tom forçou um diálogo cordial uma vez mais, mais para distraí-lo de Bill.
- Diz-lhe para se calar – berrou o desconhecido, uma vez mais, em lágrimas, para Bill. – Fá-lo calar, por favor. – Levou as mãos à cabeça e parecia ceder, finalmente. Rachel pedira o mesmo, mostrara a mesma violência, a mesma bipolaridade.
- Nós podemos ajudar – repetiu Tom, sentindo o nervosismo tomar conta de si.
- Não, não podem – murmurou, resignado. – O meu filho vai morrer…
- Eu… - engoliu em seco, antes de mentir. – Nós temos a cura. E pudemos ajudá-lo sem que haja…
- NÃO! – irado, disparou a arma cegamente. Só queria que ele se calasse, que não lhe desse falsas esperanças, que não lhe confundisse a cabeça. – Ninguém ajudou até agora! Eu preciso… preciso…
Bill sentiu-se tonto ao perceber o que realmente tinha acontecido. Olhou para o homem em confronto consigo mesmo e para o irmão agora caído no chão. Inconsciente. Ferido. Sentiu as lágrimas aglutinarem-se rapidamente e os olhos arderem. Não conseguia deixar de olhar para Tom, simplesmente olhar, sem conseguir reagir, até ver sangue na sua t-shirt.
Deu por si a pensar que o homem não fizera de propósito, que não tivera culpa por ter agido daquela forma. Que iria perder um filho em breve, tal como Natalie. Que tinha a doença a consumi-lo. E então pensou que ele também não tinha culpa, que Tom não era o culpado. Que tinham direito de viver tanto quanto eles.
Num acto irreflexo, atirou-se ao homem com uma fúria descontrolada que não se lembrava de ter sentido antes. A sua força e estrutura física era ridicularizada só pela presença do outro, mesmo que débil. Ainda assim, Bill movia-se cegamente, enfurecido, e por mais magoado que saísse daquela disputa, retribuiria conforme pudesse.
Os dedos dirigiram-se aos olhos, ao cabelo, onde conseguisse. O joelho subiu directamente à sua pélvis, sabendo que o iria arrasar totalmente, sem qualquer tipo de solidariedade masculina. Ao ver o homem caído no chão, as lágrimas fluíram livremente e com um guincho agastado caiu juntamente com ele.
- Tu mataste o meu irmão, cabrão!
O homem já tinha cedido há muito, no entanto Bill esmurrara-o sem piedade até que se sentisse mais leve. Até que os nós dos dedos ficassem em ferida. Até que o outro deixasse de respirar.
Ao cair em si, percebeu que mais importante que fazer aquele homem sofrer pelo que fizera irreflectidamente, era certificar-se de que o seu irmão continuava consigo. Que aquela viagem não ia ter o desfecho que começava a ganhar contornos na sua cabeça.
- O que é que eu fui fazer? – Levou as mãos à cabeça, arrasado, e arrastou-se para perto do gémeo.
O que fizera afinal?